Texto publicado no jornal O Momento.
Autor: Maurício Neves
Eu me recordo – o que denuncia que tenho boa memória e que estou ficando velho – de quando Dunga surgiu para o futebol. Foi na seleção brasileira de juniores, campeã do mundo em 1983, no México. Era um timaço. Dois pontas abertos e dribladores, Mauricinho e Paulinho. Dois meias muito habilidosos e bons chutadores, Geovani e Gilmar Popoca. Ainda havia Bebeto e Jorginho, que seriam campeões mundiais também pela seleção principal. O país parou para ver aquela seleçãozinha, que atropelou os adversários até a final contra a Argentina, jogo escamado no estádio Azteca, decidido em um pênalti sofrido por Paulinho e magistralmente cobrado por Geovani. E no meio daquela gurizada de futebol refinado tinha um baixinho invocado, cabelo liso e cara de brabo, que dava carrinhos e passes com a mesma naturalidade. Só não tinha nome de jogador: Dunga. O time jogava por música porque ele estava lá para carregar o piano.
Jogava no Inter, saiu para o Vasco, foi para a Fiorentina. Mas cadê quem lembra de Dunga com outra veste que não a amarelinha, número 8 às costas da camisa sempre suja de grama e terra? Foi saudado como guerreiro na conquista da Copa América em 1989 e covardemente execrado após a derrota no Mundial do ano seguinte. Nunca na história deste país, diria o mandatário-mor, um jogador foi tão criticado, espezinhado e rotulado de perna-de-pau e violento como Dunga após a Copa de 1990.
Mas ele voltou à seleção. Os cronistas hipócritas cogitaram protestos em praça pública. Não me ocorre qualquer jogador que fosse capaz se suportar aquela pressão. Mas Dunga não era um jogador qualquer, e foi forte, tão forte que cada vez que vestia aquela camisa amarela, parecia dizer à pátria de chuteiras: verás que um filho teu não foge à luta! Eu era fã do Dunga. Sentia-me dignamente representado por ele. Eu e todos que não fogem à luta.
A história é conhecida. Um golaço contra o Equador nas eliminatórias, em São Paulo. O Morumbi vaiava a seleção brasileira e Dunga acertou um petardo como se chutasse as vaias para outro planeta e comemorou com o grito mais catártico da história do futebol. E seguiu sendo o sustentáculo da seleção do tetra, até erguer a Copa do Mundo sob o sol californiano de Pasadena, no dia 17 de julho de 1994. E não se esqueçam: foi dele a última cobrança de pênalti brasileira naquela tarde, depois de extenuantes 120 minutos, jogando Pagliuca de um lado e a bola do outro. Quando ele botou a bola na marca alguém ao meu lado disse: é muito macho ou muito louco. Ou as duas coisas junto, pensei.
Pois é, este é o Dunga. Para ele, pipoqueiro é o tio que vende milho estourado na esquina. E quando parecia que ele não poderia fazer nada maior do que ressurgir dos escombros de 1990 para erguer a Copa seguinte aos berros, Dunga acaba de realizar um feito ainda despercebido. Qual? Só conto na semana que vem, senão o Celso Aurélio vai reclamar que não respeitei o espaço da coluna. Até lá.
Dizia eu na semana passada que Dunga é autor de um feito ainda despercebido, talvez até maior do que ter sido o Capitão do Tetra, o homem que domou Romário, o jogador que superou a descrença de milhões de brasileiros. Talvez esta análise só faça sentido para quem viu Dunga jogar – sim, já faz dez anos que ele abandonou os campos! – porque Dunga foi jogador em um tempo muito diferente dos dias atuais. Um tempo em que os torcedores gostavam de verdade da seleção brasileira.
Creio que isto ainda não foi devidamente sistematizado, mas ao bom observador não é novidade o abismo que se abriu entre os torcedores e a seleção. Começou com o êxodo de jogadores para a Europa, que fez com perdêssemos o hábito de torcer para que um jogador do nosso time fosse convocado. Primeiro porque ninguém em sã consciência torce para times europeus e a maioria dos selecionáveis estão lá. Depois porque, se nossos times tiverem jogadores selecionáveis, é melhor torcer para que não sejam convocados, passo certo para a venda para a Europa, seja a atraente Europa das plazas de Milão e das ramblas de Barcelona, seja a Europa gelada do segundo escalão do futebol.
Assim é que os jogadores que jogam pela seleção não são mais os mesmos que vemos no campeonato nacional. Não carregam a nossa fé cotidiana, não têm impregnado nos tímpanos o grito dos estádios brasileiros. Alguns nunca pisaram o gramado do Maracanã. São estranhos para nós, personagens da televisão, popstars que ganham em uma semana o que ganhamos em anos.
Essa ruptura teve seu auge na Copa de 2006. Uma seleção profundamente sonolenta. Tida como favorita, caminhou pelos gramados alemães com um tédio indisfarçável. Não tinha gana, não tinha raça, não tinha fome. Uma seleção que não nos representava porque era tão diferente dos brasileiros como a fome do fastio. Nós, a fome; eles, o fastio. E nós não torcemos por quem não nos representa.
Aí veio o Dunga, que nos representava a cada lance, a cada batida no peito, a cada vez em que chamava o jogo para si. Deixou os de barriga cheia no banco. Botou para jogar a fome e a vergonha na cara. Venceu mais uma vez a desconfiança, e de repente a seleção que tinha fome e vergonha na cara passou a enfileirar resultados. Entubou dois 3×0 na Argentina, o segundo em uma final monumental de Copa América. Goleou o Uruguai em pleno estádio Centenário, tocou meia-dúzia na seleção de Portugal com Cristiano Ronaldo, atropelou a Itália e conquistou a Copa das Confederações.
A comemoração dos jogadores no golaço de Lúcio, virando o jogo contra os Estados Unidos, é a prova de que a fome e a vergonha na cara estão em campo outra vez. Uma seleção vitoriosa à imagem e semelhança de Dunga.
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